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Produção de Queijos
Biotecnologia
Os microorganismos que
pertencem a microbiota do leite constituem
a chamada cultura lática. De acordo com o produto e a função fermentativa,
estas culturas são agrupadas em: produtoras de ácido lático, produtoras de
aroma, produtoras de gás, proteolíticas, lipolíticas, etc. Culturas
láticas produtoras de ácido: São empregadas em
praticamente todos os produtos fermentados do leite, sob a forma de culturas
puras ou em associação com outras culturas. As espécies de bactérias
incluídas neste grupo são consideradas como homofermentativas, isto é,
produzem ácido lático a partir da lactose e coagulam o leite dentro de 24
horas em temperaturas acima de 20oC, provocando, portanto, o
abaixamento do pH do leite de 6,6 para 4,6. As principais espécies
homofermentativas são: Streptococus
lactis, S. cremoris, S. thermophilus, Lactobacillus casei, L.
Bulgaricus, L. Helveticus e L. Lactis. Sua escolha depende das
condições de processamento, sendo a temperatura de cozimento da massa a mais
importante. Assim sendo, existem as
culturas mesófilas cuja temperatura máxima tolerada é em torno de 40oC
e inclui as espécies S. lactis, S. cremoris e L. casei, e as culturas termófilas constituídas das espécies S. thermophilus, L. bulgaricus, L. helveticus e L. lactis que toleram temperaturas entre 40 e 50oC. Culturas láticas produtoras de aroma: São
culturas especiais usadas em associação com as culturas produtoras de ácido
com a finalidade de produzir precursores de uma série de substâncias que
conferem sabor, aroma e textura ao queijo. As espécies Leuconostoc cremoris e Leuconostoc dextranicum fermentam o
citrato produzindo diacetil e outros compostos aromáticos. Elas têm sido
utilizadas em associação com as espécies de Streptococus. O emprego
destas culturas mistas com a finalidade de aumentar a produção de aroma não
constitui uma prática muito difundida, uma vez que é possível se obterem
produtos de boa qualidade usando somente as culturas produtoras de ácido
lático.
Outras culturas:
Existem
outras espécies de microorganismos, não essencialmente culturas láticas, que
são usadas juntamente com os fermentos láticos com a finalidade de produzir
certas características especiais em queijos: a)
a) Propianibacterium shermanii
é responsável pela formação de abundante olhadura existente nos queijos tipo
suíço. Esta espécie fermenta o ácido lático, com a produção de gás carbônico
(responsável pelo sabor típico), e para que isto ocorra é essencial que tenha
havido a produção do ácido lático pelos microorganismos Streptococus thermophilus e
Lactobacillus bulgaricus. b)
b) Penicillium roqueforti é
o microorganismo responsável pela coloração azul do queijo tipo Roquefort.
Ele atua decompondo a gordura do leite produzindo sabor e aroma típicos. c)
c) Penicillium camemberti
é o mofo responsável pela peptonização (ação proteolítica) e consequente produção
do sabor típico do queijo Camembert. As
três atividades mais importantes das culturas bacterianas são as seguintes: a) a)
Glicólise:
transformação da lactose em ácido lático. b) b)
Proteólise:
degradação das cadeias protéicas em compostos menores como peptídeos,
peptonas, aminoácidos, etc. c) c)
Lipólise:
hidrólise doa ácidos graxos presentes na gordura do leite e transformação em
cetoácidos, cetonas, ésteres, etc, alguns dos quais são responsáveis pelo
sabor e aroma do queijo. As
culturas de microorganismos, em geral, são seres vivos sujeitos a influências
externas. A atividade metabólica das bactérias submetidas a condições
desfavoráveis pode variar: mutações podem ocorrer, sua atividade metabólica
pode ser inibida por agentes bacteriostáticos diversos (detergentes,
substâncias químicas voláteis, ácido acético, ácido fórmico, etc), os
bacteriófagos podem provocar sua quebra e os agentes bactericidas sua
destruição (antibióticos ou agentes esterilizantes como o cloro). Atualmente, as culturas
importadas são as mais utilizadas principalmente por sua praticidade e por
ser de fácil manipulação e manutenção. O isolamento de culturas
puras exige certas condições de laboratório e algum conhecimento de técnicas
microbiológicas, não se tratando de uma operação difícil. Várias das nossas
indústrias e instituições poderiam isolar e selecionar suas próprias
culturas, as quais seriam melhores adaptadas às nossas condições
tecnológicas, além de constituir em economia para o país. Mesmo no caso de importar
o inóculo, este poderia ser mantido em uso sucessivo por um tempo muito
maior, através de programas de repicagens assépticas e utilização de técnicas
comuns de estocagem. As indústrias, hoje em
dia, importam as culturas liofilizadas e as renovam até quatro vezes por mês,
constituindo, assim, num dispêndio relativamente grande, além do problema da
dependência tecnológica. PROGRAMA DE
REPICAGENS
A indústria tem que manter
um programa de repicagens bem definido e constante com o objetivo de garantir
a pureza e a atividade do inóculo inicial e as características organolépticas
da cultura ou fermento obtido para uso diário no processamento. O
preparo da cultura ou fermento lático para ser usado industrialmente,
constitui-se, em linhas gerais, de duas fases distintas: 1)
1) fase de laboratório: onde a cultura é manuseada assepticamente
através de técnicas microbiológicas bem definidas; 2)
2) fase industrial: onde a cultura é manuseada com a maior assepsia possível sem,
entretanto, usar leite esterilizado. Nesta fase pode haver contaminação, mas
que não interferem na eficiência da cultura. Na primeira fase,
mantém-se o inóculo inicial sob uma forma de estocagem e, a partir deste,
prepara-se a cultura mãe, que é constituída de cultura pura, ou da associação
de culturas puras, como no caso do fermento misto, que é usada para preparar
a cultura industrial. Assim sendo, a repicagem diária, como no caso da
cultura mãe, pode levar a alterações nas características da cultura, mesmo
que não haja contaminação. Por isso, periodicamente ou sempre que notar
alguma alteração na qualidade do fermento, deve-se partir de um novo inóculo. Segue, em linhas gerais,
as principais etapas envolvidas o preparo de cultura industrial: a)
a) Escolha do leite Pode-se usar leite
integral, semidesnatado ou desnatado, desde que seja controlada a sua
qualidade quanto a composição, contaminação total, estado de conservação e
presença de inibidores. b)
b) Tratamento térmico do leite O aquecimento do leite
como finalidade destruir os contaminantes indesejáveis (principalmente os
patógenos) e inativar alguns inibidores naturais (por ex.: lacterina). Além destas vantagens, o
aquecimento a temperatura acima de 80oC, também causa desnaturação
das lactoglobulinas e lactoalbuminas, favorecendo o desenvolvimentos dos
fermentos láticos, pois há melhor disponibilidade de nitrogênio protéico. c)
c) Inoculação e incubação Após o tratamento térmico, o leite
é esfriado à temperatura de inoculação (depende da cultura em questão) e é,
então inoculado, sendo imprescindível o controle da acidez. A porcentagem do
inóculo é função do tipo de cultura e do tempo de incubação desejado. Com relação à incubação, além do tempo, a temperatura também
afeta a velocidade de crescimento. De um modo geral, procura-se padronizar todos os
fatores que afetam a atividade da cultura (qualidade do leite, tratamento
térmico, porcentagem do inóculo e temperatura de incubação). Assim, o tempo
de incubação permanece mais ou menos constante e qualquer variação
significativa no tempo necessário parra se atingir a acidez desejada é um
indício de que há algum problema com a cultura, necessitando de renovação ou
troca do inóculo. d)
d) Armazenamento Após o tempo de incubação
necessário, resfria-se imediatamente a cultura a uma temperatura entre 0-5oC,
paralisando assim a multiplicação dos microorganismos e a atividade
bioquímica das enzimas. Uma cultura preparada
desta forma pode ser usada dentro de dois a três dias sem qualquer problema
prático. COAGULANTES
A coalhada produzida por
ácido, a pH baixo (4,6 a 5,0), tende a ser granulada e inelástica devido a
precipitação da caseína próximo ao seu ponto isoelétrico onde ela encontra-se
insolúvel. O coágulo produzido a pH mais elevado (5,8 a 6,6) por ação
enzimática apresenta-se mais macio, suave e elástico, se rompendo mais
facilmente. Coagulantes
enzimáticos
A caseína é o substrato
sobre o qual a enzima coagulante atua para produzir, em presença de íons cálcio,
um coágulo insolúvel o qual engloba os outros componentes do leite (água,
gordura, sais, proteínas e etc). O
homem vem utilizando há séculos coagulantes tanto de origem vegetal como de origem
animal, mas nos últimos anos tem sido difundido o uso de coagulantes
bacterianos e fúngicos. a)
a) Coalhos de origem animal A produção de coalho em
pequena escala é realizada da seguinte maneira: imediatamente após os sacrifício
do bezerro, que foi alimentado somente com leite, se extrai o quarto
estômago, este é lavado e cortado em tiras de onde se extrai o coalho com o
auxílio de uma solução de cloreto de sódio (12-20%). Após a extração,
filtra-se e purifica-se a solução por precipitação salina. Esta solução é
conservada pela adição de sal e ácido bórico, entretanto se for destinada ao
consumo humano usa-se a glicerina como conservante. Durante esta fase, o
coalho é denominado pró-renina, somente após a acidificação é que o coalho se
transforma em renina, ou quimosina, a qual possui maior capacidade
coagulante. A
quantidade de coalho a ser adicionada ao leite é determinada segundo a
receita, onde também há especificações sobre a temperatura e a acidez do
leite. A temperatura está relacionada com o tempo de formação da coalhada. A
temperatura na faixa de 21-27oC formam-se coalhadas macias e
gelatinosas, a 30 oC estas são mais firmes, a 33-36 oC
as coalhadas formadas apresentam-se muitos firmes e de dessora lenta. Abaixo de 20 oC e acima de 50
oC o coalho apresenta atividade muito baixa. (Figuras 23 e 24) A
velocidade de esfriamento também é importante já que durante a coagulação as
bactérias láticas se encontram em crescimento acelerado, o que resulta em
quanto maior o tempo de acidificação, maior acidificação do meio. A acidez, ou melhor, o pH
do queijo tem um papel de grande importância na formação da estrutura da
coalhada, pois o tempo que a coalhada tarda a ficar pronta até o corte é
dependente do pH. O coalho deve ser diluído
de 6 a 10 vezes em água para que ocorra uma distribuição homogênea no leite.
Caso a diluição não seja realizada com rapidez, o coalho pode perder sua
atividade. A luz também o inativa, por este motivo devem ser usados
recipientes de cerâmica, madeira ou vidros escuros. Os
métodos de preparação, padronização e conservação do coalho são variáveis em
relação ao fabricante. b)
b) Coalhos pepsínicos A pepsina é uma enzima
proteolítica presente em coalhos de bovinos, sendo encontrada nos sucos gástricos
dos bovinos adultos, como substituinte da quimosina, encontrada somente em
bezerros. A pepsina apresenta-se menos ativa como coagulante a pH superior a
6,68 e a temperaturas maiores que 44oC, temperaturas usadas na
fabricação de queijo filado. O
tempo de coagulação até o corte da coalhada é maior quando se utiliza coalhos
pepsínicos a os coalhos tradicionais. A pepsina que permanece no soro, após a
fabricação do queijo, é destruída por tratamento térmico podendo o soro ser
utilizado para a fabricação de outros produtos. c)
c) Coalhos microbianos Como conseqüência da
Segunda Guerra Mundial e com o aumento da produção leiteira houve uma
diminuição da quantidade de coalhos animais resultando em uma busca de novos
tipos de coagulantes. Tem-se investigado a
capacidade proteolítica e coagulante de centenas de culturas de bactérias e
fungos. Bacillus polymyxa (cepa 13-13), Bacillus mesentericus (cepa PB) e o
fungo Russula discolorus (cepa 2)
são alguns microorganismos usados como novas fontes de coagulantes láticos. A
definição das cepas é importante pois para cada tipo de queijo deve ser
utilizado um coalho de comportamento específico. A
atividade dos diversos coalhos microbianos varia de acordo com o pH e com o sistema
enzimático. Uma protease presente no coalho de Mucor miehei degrada rapidamente a caseína na faixa de pH 5,5-7,0
sendo este extrato muito usado na fabricação de vários tipos de queijo. A
adição de cloreto de sódio (NaCl) no leite prolonga o tempo de coagulação
quando se está usando esta enzima, enquanto que a adição de cloreto de cálcio
(CaCl2) o reduz consideravelmente. Este extrato é sensível a
temperaturas na faixa de 37 a 45oC sendo destruído a temperatura
superior a 70oC. O coalho de M. Miehei pode ser usado tanto como
extrato puro como em misturas com outros coalhos. Com
o início do uso de coalhos microbianos teve início a utilização de misturas
tais como: Coalho de bezerro/ extrato fúngico Coalho de bezerro/ extrato bacteriano extrato fúngico/ pepsina extrato bacteriano/ pepsina d)
d) Coalhos vegetais Estes tipos de extratos
são mais usados em zonas isoladas onde não se consegue adquirir ou coalhos
tradicionais. O primeiro coagulante de origem vegetal foi o látex da figueira
(Ficus carica) pois há relatos da
existência desta árvore desde a antiguidade. Muitos extratos vegetais
são capazes de coagular o leite, entretanto existem alguns que são
excessivamente porteolíticos como a papaína da Carica papaya e a bromelina da Ananas sativa. |
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